sexta-feira, 10 de janeiro de 2014

O ladrão de Hóstias

A mulher gesticula do meio da missa para trás. Não se preocupa com toda a assembleia… Está zangada com um homem. Ah, é o homem a quem eu dei um terço. Guarde-o, ele vai ajuda-lo_ disse-lhe. O homem era doente. Estaria com uma descompensação grave. Ele ficou apreensivo, olhou para todos os lados, desconfiou, eu sorri, ele fixou-me, depois fui-me. E agora estaria ela a querer estragar tudo? Ela não desistia. O homem saiu da igreja. Desejaria que saísse? Ao fim não resisti perguntar-lhe. “Ele não pode sair logo após comungar!” _ disse. “Não pode levar o Senhor para fora!” Ela mal me ouvia, estava filada nele e não era de agora, como disse. O homem é livre de sair quando entende, afirmei. “As pessoas sabem que ele tem uma namorada, que é bruxa, ele leva-lhe a hóstia”.
Lembrei-me dum filme em que uma velha dava a hóstia ao gato, depois de a ter roubado na comunhão. Horrores passavam pela minha mente. “Tem de haver um tempo de reflexão depois da comunhão. Ele não se confessa. Ele não pode tomar o Senhor”_acrescentou. Fiquei perturbada com a informação. Que avaliação. Mas, seria afinal como ela diz? Já uma vez à entrada me tinha cruzado com ele, saindo, mas não reparei se tirava a hóstia da boca. Embora nunca me tenha prestado a tais situações, prometi-lhe averiguar, também pela curiosidade da realidade ou erro das minhas inspirações. “Deixe, da próxima verei o que ele vai fazer ”. Ela ficou contente, muito contente. O homem nunca mais apareceu, o que era desagradável pois segundo a minha percepção inicial, era suposto que ele aparecesse com maior frequência e não com menor. No outro dia finalmente, vi-o de relance chegar ao padre para comungar, inseri-me na fila quase abruptamente e dirigi-me atrás do homem para a porta da igreja. Parou no último banco, em pé. Olhou na dúvida, desconfiado, mas demoveu-a pouco depois e serenou. A seguir o homem saiu, e eu sai atrás, sem que me visse. O homem não tirou a hóstia da boca, nem a tinha guardado em nenhum lenço… pobre homem… outro dia o homem viu-me, sorriu-me, foi então que percebi, dentro de mim que a acção premeditada tinha afinal despertado erroneamente e definitivamente a empatia do homem por mim. Uma sensação de vergonha apoderou-se do meu coração, senti a contradição entre a acção e a retribuição. Percebi perfeitamente que o homem estava a ser sujeito a uma injustiça. Quanto à mulher, ficou em paz e rejubilou quando a informei que tinha verificado eu mesma, segundo os procedimentos que o homem não era um ladrão de hóstias. Mas agora no final desta história fiquei triste… Ter-me-ia prestado a tal, ainda por cima por mim mesma? Seria para sondar a Deus ou ao diabo? Ou seria para Ele me sondar a mim? Há qualquer coisa que ainda não percebi…  acho que vou esperar…

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