quinta-feira, 20 de fevereiro de 2014

A mulher das velas vinda da chuva...


A mulher entrou com um saco de plástico transparente pela cabeça  em forma de lenço vinda da azáfama da chuva. Muitos elogios, humildade também. Não me dizia respeito. O que me dizia respeito era que faltavam cinco minutos para o almoço e eu queria ir almoçar. Por isso não me constrangi em lhe dizer, que não era possível, que tinha de sair. Do lado veio uma crítica. Mas eu continuei, desculpe tem de sair agora não pode ir vender nada, está na hora do almoço, como vê, e temos de ir almoçar. Além disso não era a primeira vez que eu era a única a comprar-lhe velas e velhas mais caras do que se compram no chinês do lado só para ajudar. Eu que nem gosto de velas vermelhas… Não lhe disse que as velas eram uma porcaria, embora tivesse tido vontade e de a convidar a sair, a ela e as velas. A mulher valeu-se de quem a apoiava em palavras não em dinheiro.
Pensei cá para comigo que não lhe havia de comprar nem mais uma vela, porque há dias chuvosos em que nos esfria o coração e ficamos assim sem sensibilidade, sem humanidade... Mas logo de seguida quando a mulher saiu, senti no meu coração uma enorme escuridão, como se toda a luz que as velas houvessem acendido se tivesse acabado de apagar. Senti como o meu coração estava endurecido… “Antes as pessoas gostavam todas de ti, diziam que eras um amor de pessoa, tão doce, tão meiguinha, agora ninguém gosta de ti”_ lembraram-me. Creio que é maioritariamente verdade. Isto é grave. Quando as pessoas são o nosso maior tesouro e o meio mais seguro pelo qual Cristo nos faz alcança-l’O. Que se passa comigo?   Ando cansada, farta de fazer bem e me retribuírem com o mal. De ter boas intenções e lerem intenções duvidosas. De me ter sacrificar e ter perdido a esperança de ser reconhecida. De fazer tudo ao meu alcance e nunca ser suficiente. De nunca ser ouvida, mas apenas de ouvir…  Sou humana. Há um mínimo, e contudo quantas vezes sinto que tenho de abrir mão do que era meu de direito, e desse mínimo onde se prende a dignidade humana. Não sei se é porque Tu queres, mas não quero pensar mais. Sei que não se pode dar, dar e dar sem nada receber.  Será o amor um poço que não se esgota? Só Deus pode acrescentar a massa para que o pão seja em abundância. Estou cansada, pior, sinto-me condicionada, no que quero dizer, no que quero fazer…  É preciso andarmos bem connosco para estarmos bem com os outros, pior é quando há outros que também não nos permitem estar bem.  Quero gritar. Mas não sei se deva. No outro dia senti-me revoltar por certas humilhações que passei. Era capaz de exigir que as fizessem rectificar, quando na verdade, são essas mesmas humilhações a mais valia de um coração que ama. E quando o coração não ama, nada do nosso corpo ama. Nem a nossa mente, nem o nosso corpo todo. Que eu não queira dar um grito de justiça, que exige o que lhe é devido, mas um grito de amor… Não é só o Teu amigo que quer fazer a sua vontade, eu  também quero fazer a minha. Eu também quero exigir-Te coisas, eu também me sinto revoltada por não m’as dares, ainda antes de saber se és Tu que m’as não dás. Que se passa comigo? Se Deus tivesse um limite para as injustiças cometidas para Consigo não seria o Salvador do mundo, mas o juiz irascível. Por isso sempre que reclamo a justiça, sempre que exijo as minhas coisas, a minha vez, o meu horário… não me estou a identificar conTigo. Pergunto-me como poderão existir tantos Santos na história que perseveraram até ao fim nas atrocidades a que os submeteram. Penso que só é possível essa heroicidade unido a Deus. Penso que é difícil ser sempre bom. Penso que há uma revolução no meu coração, que eu ainda não consegui acalmar, uma escuridão onde teima em não se fazer luz. Por fim pensei que afinal era melhor ter deixado permanecer a mulher das velas, porque é melhor a luz na nossa alma, do que qualquer direito, do que qualquer refeição do mundo. Da próxima vez que a mulher voltar, vou ver se lhe compro mais uma vela, pois certamente vai aquecer-me o coração...

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