sexta-feira, 2 de janeiro de 2015

Dos que me deste nenhum deles perdi...

O meu braço direito ficou no ombro dela. Disse-lhe que rezaria por ela, foi o desafio lançado do altar pelo nosso prior a todos os que se encontravam à nossa direita. Esta manhã, não me esqueci dela na oração. Deus gosta que cumpramos o que prometemos e encarrega-se de nos trazer à mente quando esquecemos…
Maria do Céu… Imagino que Maria um dia irá para o Céu. Que era dia de Maria e que elA está no Céu. Sempre que rezar por Maria sou obrigada a lembrar-me deste Céu que me faz orar ainda com mais convicção, como se fosse ela que rezasse por mim... Eu estava à sua esquerda e contudo perguntou-me também o nome, sim por qualquer motivo também irá rezar por mim. Havia na rua da minha infância uma Maria do Céu. No fim da sua vida aceitava o convite para viver comigo os últimos anos que lhe restavam, mas eu ou a vida já não proporcionámos. Quando passo e olho a varanda da Maria do Céu, aperta-me o coração. Há um menino com um triciclo e outras gentes… e eu que pensava que aquela casa era da Maria do Céu e do seu cãozito tão amado, foi assim que eu vi mais de quarenta anos, mas agora percebi que a casa não era dela, era do mundo. Juntou-se a este pensamento as palavras do nosso prior para me dar uma levíssima névoa de angústia neste dia 1 do ano. Talvez não mudasse o seu gabinete porque está de passagem. Será a sua forma interior de ultrapassar contrariedades centrando-se na brevidade do tempo? Ou será uma visão de Grifo-de-rüppell rasando de passagem? Desarruma-me a casa interiormente e por isso digo-me que até os abutres por vezes têm dificuldade em levantar voo e se ocupam temporariamente dos ossos só porque me sinto instantâneamente incapaz de o acompanhar acima do(s) Everest(es)… A minha casa também será a casa do mundo. Tenho hoje ainda mais consciência da brevidade da vida. Este ano desejava que fosse para Ti, que me não desviasse da Tua vontade, porque afinal nunca sabemos o dia em que temos de desocupar a casa e cede-la a outro. E eu que nem Te pago renda e nem pus particularmente a render os meus talentos, sinto-me indigna e receosa. Mas, as palavras do nosso prior sempre me comovem profundamente e ele é um homem de Palavra... E cada palavra é um mundo… Porque temer, se deseja e diz, nenhum de nós se perderá? Não devo admirar-me afinal não foi essa a vontade do Pai, O qual Te enviou? Então também ele como sacerdote, pode dizer-se: “ Que Eu não perca nenhum de todos os que Ele me deu ”, mas que Tu os ressuscites no último dia[1] e dizer-Te: Dos que me deste nenhum deles perdi[2]… Hoje ele também nos deu uma fracção de (S)ua missão, deu-nos o que estava à nossa direita… um desconhecido ou desconhecida, não sabemos se nos voltaremos a ver, mas também podemos dizer: Senhor, que aquele que me deste, não se perca… Sinto ainda que através daquela que me deste, me dás mais a mim… que o Céu fica acima do Everet e que a oração alcança um voo superior, a todas as asas mais abrangentes. Afinal voar, é estar numa eterna passagem… Sim, senhor prior, “Boa viagem”[3]




[1] Referência a João 6:39
[2] Referência a João 18:9
[3] Referencia às palavras do prior na missa: “Caminhemos para 2015 ao lado de Deus. Boa viagem!”

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