terça-feira, 30 de dezembro de 2014

e Tu aconteces em nós…

Dei por mim a pensar nos sonhos destruídos… lembro-me do rapaz que chorava dizendo que o homem lhe havia destruído todos os seus sonhos, que nunca mais poderiam ser recuperados. Senti-me tocada, constrangida, revoltada… Penso agora se isso é verdade, se a verdade é em cada um de formas diferentes e se essas formas nos impulsionam para a vida ou para a destruição. Penso se as marcas podem ser saradas só com o tempo ou se há algum tempo que se desconheça e se creia que actue independentemente do tempo humano, do meio, da nossa personalidade e resiliência.
Penso que se o Teu tempo é não haver tempo é possível o impossível. Penso, que deva doer a inocência perdida e pergunto-me se o que se perde é de facto irrecuperável. Pergunto-me porque em diferentes circunstâncias e medidas todos podemos viver a perda da inocência. Lembro-me dum amigo me relatar a insuportável dor após a traição da mulher em quem plenamente confiava, afirmara-me que a perda da inocência era devastadora. O adolescente molestado, que vê os seus sonhos coartados também vê toldar-se diante de si o futuro agora instável e ameaçador. A profunda decepção em alguém também mata em nós a esperança de Deus… Sim, porque se Deus não se manifesta por nós, manifestamo-nos por Ele. Mas ainda não cheguei a respostas ... espero as Tuas  ou as minhas, que as encontre em Ti ou conTigo. Penso que por vezes há que perder para encontrar, que por vezes há que destruir para construir ainda que não tenha havido essa finalidade prévia, é em Ti que podemos encontrar a verdade de tudo, ganhar um novo sentido, em Ti. A experiência, a dor, o sonho… O sentido inesperado como se todas as amarguras da vida fossem por Ti ocasionadas! Como se tivesse sido a Tua vontade, mas não, Tu És o eterno oleiro capaz de reinventar uma nova forma a cada instante, e por isso, quando há pouco procurava uma porta, uma janela, ela está aqui, mesmo se a não percebi, sim está aqui, pois onde Tu estás, está a possibilidade reinventada por Ti. Gostaria de ter abraçado aquele rapaz, com um abraço diferente[1], ter-lhe dito que os sonhos são eternos, vivem dentro de Ti, vivem por isso dentro de nós, porque estás em nós, e És a porta e a janela que procuro. Os sonhos são como os mortos, só morrem quando os esquecemos. Não permitamos que nos matem os sonhos, somos nós que decidimos. Descobri em Ti que os sonhos se renovam, as esperanças se multiplicam e as possibilidades aumentam. Sim, é preciso que muitos muros desmoronem e se façam ruínas em nós, para Te procurarmos e podermos escutar a Tua voz ainda que ela nada nos diga, porque, basta que estejas lá.[2] Então podemos dizer: Deus quer, o homem sonha, a obra nasce[3], e Tu queres todos os dias, e nós queremos, sim queremos a felicidade, porque Tu nos deste o impulso para a vida e não para a morte, Tu És um Deus de vivos e não de mortos, Tu ages no coração dos vivos e é lá que a vida acontece… Por vezes quando debaixo das ruínas da vida deixamos de querer, deixamos de conseguir sair, há uma voz que grita, há uma mão, há uma luz, há uma palavra, há uma lembrança, há um sorriso, há… sim há… há ainda este sonho em mim, em ti, há ainda este sonho em Ti para nós. Há ainda este sonho possível seja ele qual for dentro de nós… e Tu aconteces em nós…




[1] Expressão de um conhecido referindo-se a um abraço genuíno, franco e sem intenções secundárias
[2] Expressão usada pelo nosso prior 
[3] Fernando Pessoa 

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