Diz-se ateu, mas pelo padre, “por aquele padre dava a vida”_Foram
palavras suas. Era um padre muito bom… Um dia uma madame, diz ligeiramente ressentido,
deu uma boa quantia ao bom padre para restaurar os santos da igreja. Ele olhou
para os Santos de pau… não pediam de comer, nem de beber… lá em cima na Estrangeira, onde até tinha
morrido uma mulher de joelhos , estrangulada pelo namorado, as pessoas
escondiam-se em tocas. Tocas… buracos feitos na rocha. Esse dinheiro
chamava-lhe o coração a apaziguar a doença com medicamentos e a fome com
comida. Ele vivia no Calvário, por vezes esses pobres até
abusavam dele… enquanto almoçava pediam-lhe sempre mais qualquer coisa.. . era
homem de manter continuamente os bolsos vazios.
E aproximando-se da minha face para me dizer um segredo, enquanto não consegue impedir as lágrimas, profere baixinho
ainda espantado: “Um dia mostrou-me as solas dos sapatos estavam todas rotas, cheias
de buracos…!”. A admiração que o rapaz
de então nutria pelo padre, fora interrompida pela visita da benemérita que
verificara que os santos continuavam por pintar. Apesar das facturas que
detalhavam ao pormenor a sua doação, a influente mulher dera parte à pide que
extraditara o padre para a Sicilia. Anos depois voltara a Portugal. Velho e com
problemas numa perna foi como o vira uma das últimas vezes. Desejavam ainda ao
retorno atribuir-lhe uma missão junto de ricos, mas recusara, sempre fora dos
pobres. E é assim que os verdadeiros
pobres em espírito perpetuam na memória das gerações a imagem de Cristo. É
assim que este homem, que se diz ateu, ama a Cristo, e com Ele se comove, e com Ele evangeliza, na
figura de um sacerdote que marcou para sempre a sua vida...
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