domingo, 23 de março de 2014

Há tanta gente a não poder dizer Pai

A rapariga ligou. Disse-me tantas coisas, chorou tanto tempo, duas horas ou mais. E eu ouvi. Ajudei. Compreendi. Era o pai. Foi ele que lhe ensinou. Foi com ele que aprendeu. E até aprendeu a gostar e chorava, chorava. Que não entendemos, que não sabemos, o que é essa dor. Que compreendia fiz-lhe ver. A conversa era pesada. Muito pesada. Cresceu ligada ao agressor e sente-se impossibilitada emocionalmente de se desligar. Ela não via esperança, apenas a morte e a vergonha. Perguntei-me porque é que há homens, que roubam os pais e os substituem por figuras indefinidas amadas e odiadas. O que importa é a sua dor.
É ainda possível ver um novo céu, ter uma nova esperança. Despenaliza-o ao mesmo tempo que o incrimina. É ambígua. Continua a chorar convulsivamente. A televisão falava e as chamadas afluíam. Os fantasmas escondidos nos lençóis, soltavam o seu grito outrora silencioso. Porque é que há pais, que não permitem aos seus filhos abraça-los no dia do pai? Porque é que há pais que retiram a possibilidade aos seus filhos de terem um pai? Mas a vida deve continuar. Ainda hoje lembro o choro dessa e de outras mulheres. Depois de desligar o telefone, pensei que há tanta gente neste mundo a não poder dizer pai.

Sem comentários:

Enviar um comentário