A rapariga ligou. Disse-me tantas coisas, chorou tanto
tempo, duas horas ou mais. E eu ouvi. Ajudei. Compreendi. Era o pai. Foi ele
que lhe ensinou. Foi com ele que aprendeu. E até aprendeu a gostar e chorava,
chorava. Que não entendemos, que não sabemos, o que é essa dor. Que compreendia
fiz-lhe ver. A conversa era pesada. Muito pesada. Cresceu ligada ao agressor e
sente-se impossibilitada emocionalmente de se desligar. Ela não via esperança,
apenas a morte e a vergonha. Perguntei-me porque é que há homens, que roubam os
pais e os substituem por figuras indefinidas amadas e odiadas. O que importa é
a sua dor.
É ainda possível ver um novo céu, ter uma nova esperança. Despenaliza-o ao mesmo tempo que o incrimina. É ambígua. Continua a chorar convulsivamente. A televisão falava e as chamadas afluíam. Os fantasmas escondidos nos lençóis, soltavam o seu grito outrora silencioso. Porque é que há pais, que não permitem aos seus filhos abraça-los no dia do pai? Porque é que há pais que retiram a possibilidade aos seus filhos de terem um pai? Mas a vida deve continuar. Ainda hoje lembro o choro dessa e de outras mulheres. Depois de desligar o telefone, pensei que há tanta gente neste mundo a não poder dizer pai.
É ainda possível ver um novo céu, ter uma nova esperança. Despenaliza-o ao mesmo tempo que o incrimina. É ambígua. Continua a chorar convulsivamente. A televisão falava e as chamadas afluíam. Os fantasmas escondidos nos lençóis, soltavam o seu grito outrora silencioso. Porque é que há pais, que não permitem aos seus filhos abraça-los no dia do pai? Porque é que há pais que retiram a possibilidade aos seus filhos de terem um pai? Mas a vida deve continuar. Ainda hoje lembro o choro dessa e de outras mulheres. Depois de desligar o telefone, pensei que há tanta gente neste mundo a não poder dizer pai.
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