Passa um
rapaz na maca. É novo. Vai desolado. O pai acompanha-o. Uma mulher arrasta uma
botija que termina em dois tubos a entrarem-lhe pelo nariz. Um homem de máscara
é empurrado na cadeira de rodas por um outro que pede licença em voz alta,
todos se concentram à entrada da central de colheita de análises clínicas. Comecei a sentir-me ligeiramente engripada após ter ali estado na semana passada, desde a última vez em 1996, segundo me informaram. Olho Teresinha.
Interrogo-me e colocam-se-me dúvidas várias. Eram mensagens belas... Só tenho o céu azul entre os blocos de cimento, vistos das
janelas herméticamente fechadas. Penso em ir-me embora. Fazer como a minha
colega que não quer saber. Penso em Deus. Reparo no ninho das andorinhas
debaixo das varandas, conto três. Lembram-me o céu. Um outro céu. Um idoso em
passos intermitentes exclama Meu Deus! Os meus olhos acompanham-no prontos a
ajudar. À porta há reclamações. Sinto-me num mundo desconhecido e
traumatizante. Fragilizo-me com pouco. Passam-me pela memória outros tempos.
Verifico de tempos a tempos a minha vez...
Um homem olha para mim. Mais dois segundos inicia conversa. Achei melhor não permitir chegar a hipótese. Não vale a pena, não sei se por mim, se por Ti. Lembrei-me do homem interessante, elegante e educado que conhecera numa espera interminável noutro hospital. Estava sentado ao meu lado. Conhecemo-nos numa situação delicada, ele iria ser operado e eu ainda não sabia o que me iam ditar. Rezava antes de começarmos a falar. Simpatizáramos um com o outro. Por fim, convidara-me a passear no seu veleiro. Tinha uma situação financeira privilegiada e fazia questão de mo fazer ver de várias maneiras. Andar de veleiro não era novidade para mim. Já conheci outros homens e ricos que se apaixonam precisamente por mulheres comuns que desvalorizam os seus atributos monetários, mas se apaixonam por eles. Isso primeiro admira-os, depois fascina-os, confunde-os. Não era difícil fazer uma antecipação do futuro. Seria amante daquele homem. Ele não deixaria a família pois tinha filhos pouco menos da minha idade, mas amar-me-ia porque se encantara por mim desde aquela hora. Eu também viria a dedicar-me a ele e teria problemas em libertar-me porque as minhas fragilidades veriam um pilar no seu carácter firme e determinado. Se um dia tivesse um desejo de ficar comigo e não voltar para casa eu iria dissuadi-lo porque não sou livre de coração. Sei que me ajudaria nas necessidades e que tudo seria mais ou menos similar ao que eu já vivera no meu passado. Como não tinha conseguido travar a tempo toda a confusão e me deixara ir pela minha carência humana, teria de lidar com as consequências. Viveria a incoerência da infidelidade e finalmente optaria por Deus. Não nos veríamos mais ou seríamos amigos com as dificuldades que isso traria. E decorrido aos meus olhos, todo um futuro quase inequívoco, melhor era não haver presente e eu não voltar a falar com ninguém nas esperas dos hospitais, onde estamos mais frágeis. Volto a olhar os ninhos que me comovem. Depois releio as frases de Teresinha. Passa pelo meu coração uma dor... centro-me na palavra Misericórdia…. Vejo passar uma rapariga. Não posso acreditar que uma miúda tão linda tenha cancro. Leva um lenço na cabeça e os olhos verdes tristes. Os médicos também carregam as malas de rodas por um corredor interminável e penoso. Depois vem-me à cabeça o texto num blogue, os de dentro e os de fora... a palavra AMOR em maiúsculas do desconhecido ficara a insistir na minha cabeça... Este Amor que Deus, por mais que façamos asneiras tem por nós... Olho a senha rosa que me deram. Vejo uma freira diligente, parece ter passado por muitos infernos piores que este pela força e naturalidade da sua presença. É destemida. Certamente carregara crianças com Hiv em África, ou perdera parte da família... Eu hoje perguntei-me, porque é que alguns voam tão alto como as andorinhas e outros se limitam a ver os seus ninhos pelas janelas?
Um homem olha para mim. Mais dois segundos inicia conversa. Achei melhor não permitir chegar a hipótese. Não vale a pena, não sei se por mim, se por Ti. Lembrei-me do homem interessante, elegante e educado que conhecera numa espera interminável noutro hospital. Estava sentado ao meu lado. Conhecemo-nos numa situação delicada, ele iria ser operado e eu ainda não sabia o que me iam ditar. Rezava antes de começarmos a falar. Simpatizáramos um com o outro. Por fim, convidara-me a passear no seu veleiro. Tinha uma situação financeira privilegiada e fazia questão de mo fazer ver de várias maneiras. Andar de veleiro não era novidade para mim. Já conheci outros homens e ricos que se apaixonam precisamente por mulheres comuns que desvalorizam os seus atributos monetários, mas se apaixonam por eles. Isso primeiro admira-os, depois fascina-os, confunde-os. Não era difícil fazer uma antecipação do futuro. Seria amante daquele homem. Ele não deixaria a família pois tinha filhos pouco menos da minha idade, mas amar-me-ia porque se encantara por mim desde aquela hora. Eu também viria a dedicar-me a ele e teria problemas em libertar-me porque as minhas fragilidades veriam um pilar no seu carácter firme e determinado. Se um dia tivesse um desejo de ficar comigo e não voltar para casa eu iria dissuadi-lo porque não sou livre de coração. Sei que me ajudaria nas necessidades e que tudo seria mais ou menos similar ao que eu já vivera no meu passado. Como não tinha conseguido travar a tempo toda a confusão e me deixara ir pela minha carência humana, teria de lidar com as consequências. Viveria a incoerência da infidelidade e finalmente optaria por Deus. Não nos veríamos mais ou seríamos amigos com as dificuldades que isso traria. E decorrido aos meus olhos, todo um futuro quase inequívoco, melhor era não haver presente e eu não voltar a falar com ninguém nas esperas dos hospitais, onde estamos mais frágeis. Volto a olhar os ninhos que me comovem. Depois releio as frases de Teresinha. Passa pelo meu coração uma dor... centro-me na palavra Misericórdia…. Vejo passar uma rapariga. Não posso acreditar que uma miúda tão linda tenha cancro. Leva um lenço na cabeça e os olhos verdes tristes. Os médicos também carregam as malas de rodas por um corredor interminável e penoso. Depois vem-me à cabeça o texto num blogue, os de dentro e os de fora... a palavra AMOR em maiúsculas do desconhecido ficara a insistir na minha cabeça... Este Amor que Deus, por mais que façamos asneiras tem por nós... Olho a senha rosa que me deram. Vejo uma freira diligente, parece ter passado por muitos infernos piores que este pela força e naturalidade da sua presença. É destemida. Certamente carregara crianças com Hiv em África, ou perdera parte da família... Eu hoje perguntei-me, porque é que alguns voam tão alto como as andorinhas e outros se limitam a ver os seus ninhos pelas janelas?
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