Ao ouvir as palavras de A, caí em mim, tantos anos a pedir
por P, mas ele nunca me disse uma só palavra de conforto na doença, nunca me
ajudou nestas horas difíceis, nunca me ligou, nem me fez rir hoje…
Mas A preocupa-se comigo. Não me posso levantar vai para dois dias com
muitas tonturas e náuseas e custa-me a atender o telefone, mas esforço-me, ele
é a única voz que me anima… Toda a santa tarde Vos falei de como Estavas
ausente. E porque havias de estar Presente?
Disse-Vos que é insuportável vivenciar a dor sem Vós, é como estar à beira de um abismo, sem rede. Disse-Vos que não posso morrer sem ser boa e dominar este meu génio onde não abunda a santidade. Disse-Vos que mudarei se me curasses e disse-me ainda que por vezes as situações parecem-nos estranhas… as alturas e os tempos… E fiquei a pensar nos intervalos em que era possível pensar, porque nos outros sentia as tonturas e as náuseas. Acho agora que não estavas tão ausente. Que quando não nos falas podes falar-nos por outros… Creio que moveste o meu amigo a fazer estas chamadas que foram praticamente as únicas que atendi. O meu amigo que de tão preocupado deixou o seu telefone ligado durante a noite para caso precisasse ligar. Não deveria ter-lhe dito, pois a preocupação tirou-lhe o sono e disseram-me que ouviram o telefone tocar eram 4 e 6 da manhã, lembro-me agora que não sei se estava a dormir se a sonhar… sempre tive o sono pesado e as vezes que tive de acordar de noite para atender uma chamada não me pude responsabilizar pelo que havia dito tal é normalmente a profundidade do sono. Esta manhã o meu amigo havia comido algo que lhe fizera mal, sentia-se tonto não podia voltar a cabeça rápido para o lado. Talvez tivesse sido do queijo. Eu não podia virar a minha e nem baixa-la e mante-la em pé era difícil igualmente sem tonturas, parecia um carrossel. Não estou totalmente restabelecida, tento distrair-me. Pego na bíblia para rezar, as letras não são nítidas, ainda menos à luz sombria. Curioso quanto Vos rezava estranhamente parecia que mais as tonturas pioravam. Pensei que havia marcado há tempos intenções para a missa de amanhã e que provavelmente não poderia estar presente. Pensei em mudar a intenção para as minhas melhoras, mas não me pareceu conveniente. Se desejardes melhorarei. O telefone toca pela oitava vez. Ontem A na sua generosidade disponibilizou-se a levar-me ao médico. Passei a tarde a dormitar quando acordei havia sonhado com P! P está sempre presente na minha vida embora seja praticamente ausente dela. P nunca teve uma palavra de conformo na doença nem de ânimo na maioria das alegrias, e pior, nunca me deixara conforta-lo nas tristezas e de alegar-me com ele nas alegrias. Porque é que P há-de ter tamanha importância na minha vida, pergunto-Vos? Disse-Vos que os meus amigos eram estes, os que estão comigo quando preciso e eu com eles quando precisam… “Então como está a minha amiga?” “Na cama, não me consigo levantar, e mal para ir à casa de banho”. Se eu morresse P não queria saber, se quisesse saber não me teria feito passar tanto, não seria sempre ausente… e esse tanto é tanto. O tanto que só Vós sabeis. Pior é o tanto que a minha cabeça ou o meu coração insistia em atribuir-lhe. Pergunto a A se está melhor das suas tonturas. Explica-me que estava bem, que acordara bem e que até fizera ginástica, depois das orações da manhã haviam começado as tonturas… devia ser de… a hipótese era agora outra, mas de repente eu achei que Vós Vos fazíeis presente de alguma maneira através daquela situação para mim.... eu que durante todo o tempo vivia a profunda ausência do Vosso conforto, parecia que estava ali uma boa forma de sensibilização para a minha situação. “Padre, acho que lhe peguei as tonturas…”_ disse. Ele riu-se”Se calhar… se calhar somos almas gémeas”. “_Nunca se sabe!”_respondi. E quando desligamos fiquei a pensar nas almas gémeas… Depois... sei lá porquê... resolvi rezar por P, pelo que não foi, pelo que não fui, pelo que é, pelo que não devia ser, mas só Vós podeis afinal saber... Esta manhã A ligou-me: "Como está??"_" Já ando do quarto à cozinha e pela casa, não sei se me atrevo ir à rua..." _"Vai porque eu já estou melhor, vai!" E assim ficamos... e eu confiante de que as suas melhoras significavam as minhas melhoras...
Disse-Vos que é insuportável vivenciar a dor sem Vós, é como estar à beira de um abismo, sem rede. Disse-Vos que não posso morrer sem ser boa e dominar este meu génio onde não abunda a santidade. Disse-Vos que mudarei se me curasses e disse-me ainda que por vezes as situações parecem-nos estranhas… as alturas e os tempos… E fiquei a pensar nos intervalos em que era possível pensar, porque nos outros sentia as tonturas e as náuseas. Acho agora que não estavas tão ausente. Que quando não nos falas podes falar-nos por outros… Creio que moveste o meu amigo a fazer estas chamadas que foram praticamente as únicas que atendi. O meu amigo que de tão preocupado deixou o seu telefone ligado durante a noite para caso precisasse ligar. Não deveria ter-lhe dito, pois a preocupação tirou-lhe o sono e disseram-me que ouviram o telefone tocar eram 4 e 6 da manhã, lembro-me agora que não sei se estava a dormir se a sonhar… sempre tive o sono pesado e as vezes que tive de acordar de noite para atender uma chamada não me pude responsabilizar pelo que havia dito tal é normalmente a profundidade do sono. Esta manhã o meu amigo havia comido algo que lhe fizera mal, sentia-se tonto não podia voltar a cabeça rápido para o lado. Talvez tivesse sido do queijo. Eu não podia virar a minha e nem baixa-la e mante-la em pé era difícil igualmente sem tonturas, parecia um carrossel. Não estou totalmente restabelecida, tento distrair-me. Pego na bíblia para rezar, as letras não são nítidas, ainda menos à luz sombria. Curioso quanto Vos rezava estranhamente parecia que mais as tonturas pioravam. Pensei que havia marcado há tempos intenções para a missa de amanhã e que provavelmente não poderia estar presente. Pensei em mudar a intenção para as minhas melhoras, mas não me pareceu conveniente. Se desejardes melhorarei. O telefone toca pela oitava vez. Ontem A na sua generosidade disponibilizou-se a levar-me ao médico. Passei a tarde a dormitar quando acordei havia sonhado com P! P está sempre presente na minha vida embora seja praticamente ausente dela. P nunca teve uma palavra de conformo na doença nem de ânimo na maioria das alegrias, e pior, nunca me deixara conforta-lo nas tristezas e de alegar-me com ele nas alegrias. Porque é que P há-de ter tamanha importância na minha vida, pergunto-Vos? Disse-Vos que os meus amigos eram estes, os que estão comigo quando preciso e eu com eles quando precisam… “Então como está a minha amiga?” “Na cama, não me consigo levantar, e mal para ir à casa de banho”. Se eu morresse P não queria saber, se quisesse saber não me teria feito passar tanto, não seria sempre ausente… e esse tanto é tanto. O tanto que só Vós sabeis. Pior é o tanto que a minha cabeça ou o meu coração insistia em atribuir-lhe. Pergunto a A se está melhor das suas tonturas. Explica-me que estava bem, que acordara bem e que até fizera ginástica, depois das orações da manhã haviam começado as tonturas… devia ser de… a hipótese era agora outra, mas de repente eu achei que Vós Vos fazíeis presente de alguma maneira através daquela situação para mim.... eu que durante todo o tempo vivia a profunda ausência do Vosso conforto, parecia que estava ali uma boa forma de sensibilização para a minha situação. “Padre, acho que lhe peguei as tonturas…”_ disse. Ele riu-se”Se calhar… se calhar somos almas gémeas”. “_Nunca se sabe!”_respondi. E quando desligamos fiquei a pensar nas almas gémeas… Depois... sei lá porquê... resolvi rezar por P, pelo que não foi, pelo que não fui, pelo que é, pelo que não devia ser, mas só Vós podeis afinal saber... Esta manhã A ligou-me: "Como está??"_" Já ando do quarto à cozinha e pela casa, não sei se me atrevo ir à rua..." _"Vai porque eu já estou melhor, vai!" E assim ficamos... e eu confiante de que as suas melhoras significavam as minhas melhoras...
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