Confessou-me duas
vezes. Era minuciosamente eficaz, experientemente imperturbável, generosamente
misericordioso, humano, humilde, calmo, sensato e parecia ter todo o tempo, não
o tendo. Passaram-se alguns meses até me lembrar que me poderia compreender e
ajudar! Ainda assim, deixei passar outros tantos entre o vou e o não vou, o não
creio e o creio. Agora relembrara o assunto no dia anterior e no dia seguinte ele
era reforçado pelo facto de o reencontrar nas laudes. Pensei procura-lo, mas nessa mesma tarde, recebo um
telefonema inesperado onde me dizem que aquele padre a quem nos havíamos
confessado há mais de um ano, estava de saída! Fiquei a pensar…
Talvez agora ele já não tivesse tempo para me atender, ou se me atendesse seria impossível explicar-me ou compreender-me com a pressão mútua do tempo. Deixei entregue a Jesus, mas posteriormente determinei-me a procura-lo no dia seguinte. Não estava. Todos o pretendiam numa azáfama de variadíssimos assuntos. Senti-me tão minúscula que me perguntava o que fazia ali, seria melhor ir-me embora, mas continuava colada à cadeira, só o meu pensamento fluía. Conheciam-no pelos pés e por isso disseram-me que me abeirasse das escadas para lhe falar! Intimidada cumprimentei-o.
Atendia então após a missa. No tempo de espera disse-me: “Jesus, vou-me embora, no fim da missa ele perceberá que simplesmente me fui embora!”, mas não consegui, não sei se as pernas não obedeciam ou até se algo paralisara a acção. O padre não transparecia um só incómodo por ter de me atender a uma hora justa de descanso, após um dia cansativo. Era fiel a si mesmo e irrepreensível. Desta vez entramos na sala da direita. Por uns vinte minutos falamos dos acontecimentos recentes, era tão preocupado e cuidadoso que lhe achei graça. Possuía uma inteligência espiritual fantástica, advinda talvez da sua fidelidade e empenho, mas a sua humildade foi desta vez, o que mais me impressionou. Como é possível, que uma pessoa tão boa, me tenha dito coisas tão más? Como me poderá ter feito sentir tão incompreendida? Como poderia parecer tão injusto? Eu, tal como a senhora dos óculos (post “À procura de nós à procura de Ti”), estava de rastos. Estou certa que Deus por qualquer motivo não permitiu que eu saísse de lá bem! Mas será que não estaria Deus nos nossos confessores? Será que Deus só está quando as palavras são de ajuda imediatamente visível e de bem-estar? Tudo se transformara em palavras incompreensíveis, em estranhas formas de me imprimir sentimentos de culpa de coisas ocultas e totalmente desconhecidas à minha consciência! Parecia ter descido sobre o padre uma espécie de sobrenaturalidade justiceira donde tudo era uma abstracção confusa e imperceptível. Nada me pesa na consciência disse-lhe eu, excepto a situação referida. Não sei porquê, mas não acreditava em mim, coisa que não suporto, como se houvesse relatos escondidos ou trunfos na manga. O oposto do que sou. A certa altura digo-lhe: Estamos aqui perante Deus e acha que não lhe estou a dizer a verdade? Não sei que verdade queria arrancar-me ou se ela existe, mas a única verdade que eu detinha no momento era toda a que estava exposta. A certa altura diz-me ainda: “Nós somos sempre responsáveis pelos nossos actos!”. Esta foi a frase mais paradoxal que eu vivi e que mais mexeu comigo. Por um lado é verdade, teoricamente somo-lo, mas por outro pode ser uma grande mentira! (Ler Post responsáveis pelos nossos actos*). Não existe verdade humana, ela é uma total ficção, a única verdadeira Verdade que existe é a de Deus e É Deus, uma vez que tudo o que é humano é manipulável por Deus. Essa possibilidade parece fazer de cada situação, uma situação inteiramente nova, assim Deus o queira, assim o homem o permita. A minha verdade é a verdade de Deus cada vez que eu me entrego às Suas disposições, conhecendo-A ou não. Poderemos ser responsáveis pelas opções de Deus? Será que quando aceitamos as escolhas de Deus, as propostas de Deus, somos responsáveis pelos nossos actos? Será que cada acto conhece as opções de Deus ou disse-lhes apenas “Sim”? Se eu Lhe digo Sim, posso ser responsável pelos meus actos, quando faço a Sua vontade, mas terei eu inteiramente responsabilidade neles? Podemos ser responsáveis pelas propostas de Deus, mesmo não revelando Deus todos os pormenores das Suas propostas mas, somos nós responsáveis pelos actos advindos desse Sim e suas consequências, ou estaremos a assumir responsabilidades que não nos cabem directamente? O facto de nos colocarmos disponíveis para Ele, dá-nos a certeza de que É Ele que age em nós? Não posso e nem devo analisar continuamente as intenções de Deus. Não posso duvidar que É Deus, pois não posso sequer coloca-l’O em causa, baixando a minha confiança n’Ele… A confiança n’Ele e a escolha d’Ele, levam-me a viver as consequências das Suas decisões, agradáveis ou desagradáveis, com o mesmo acolhimento. Se só acolhemos as boas palavras e rejeitamos as más, se nos apressamos a querer descartar-nos do mal estar, não estamos provavelmente aptos a Amar, porque é preciso o sofrimento para existir Amor. Jesus, tenho de reafirmar que seguir-Te é aceitar as Tuas razões, ainda que as desconheça, mesmo ao deixares a minha alma sem luz, quando eu a procurava, e sem perguntar porquê, amar…! Com quanto sofrimento o Amor se realiza? Nem uma só compreensão, nem um só consolo, pelo contrário. Já era noite, todos haviam saído. Tudo às escuras. Eu sentia a dicotomia do padre e de Deus. O padre era bom e Deus não era cruel. “Estou muito pior do que entrei” disse-lhe incapaz de partir. “Não foi minha intenção”_afirmou. “Talvez lhe faça sentido depois!” Essas palavras ressoaram estrondosamente pior. Era então uma espécie de confissão adiada que dava para o presente e para o futuro? Era uma confissão para depois, com absolvição presente? Não bastava o vazio do presente como o receio do futuro. Não me libertou, nem na última frase que me disse quando me acompanhou à porta ao darmos um forte aperto de mão. Nesse dia fiquei deprimida. Na manhã seguinte não me apetecia ver a luz do sol. A última vez que me sentira assim, há uns anos foi quando falecera o meu cão. Como é que o padre me deixara tão mal e as expectativas de que me entendesse saíram tão forjadas? No dia seguinte socorri-me de um sacerdote, meu amigo há anos, que surgira no skype. Um padre nunca deve deixar ninguém sair mal da confissão!_disse (mas será que isso é verdade?) Falou-me genuinamente da Misericórdia de Deus pela segunda vez na vida e eu reencontrei a paz. Que a minha Misericórdia andava muito por baixo e também aqui eu vi a face de Deus a dizer-me muitas coisas numa pequena frase, quando em tantas palavras eu não tinha percebido nada (no momento). Mas não seria Ele, O mesmo nos dois sacerdotes? Por fim, a primeira lição que comecei a retirar desta experiência foi que quando se fica muito mal o sentimento toldam-nos a mente, venda-me os olhos e podemos fazer coisas erradas. Que não me devo desesperar de socorro e nem de uma busca urgente de um novo equilíbrio. Que tenho alguma incapacidade de lidar com o sofrimento, a incompreensão e a fragilidade. Percebi que é preciso suportar a dor. Que me devo render à aceitação de que quem deseja seguir a Cristo, precisa de saber viver a dor! Essa dor, também pode ser provocada pela mão de Jesus, através do sacerdote. Que as palavras das confissões não são alheias a Deus. Que por fim a vontade de Deus é Sempre feita, quer a conheçamos quer não. O resto irei compreendendo, de uma confissão adiada...
Talvez agora ele já não tivesse tempo para me atender, ou se me atendesse seria impossível explicar-me ou compreender-me com a pressão mútua do tempo. Deixei entregue a Jesus, mas posteriormente determinei-me a procura-lo no dia seguinte. Não estava. Todos o pretendiam numa azáfama de variadíssimos assuntos. Senti-me tão minúscula que me perguntava o que fazia ali, seria melhor ir-me embora, mas continuava colada à cadeira, só o meu pensamento fluía. Conheciam-no pelos pés e por isso disseram-me que me abeirasse das escadas para lhe falar! Intimidada cumprimentei-o.
Atendia então após a missa. No tempo de espera disse-me: “Jesus, vou-me embora, no fim da missa ele perceberá que simplesmente me fui embora!”, mas não consegui, não sei se as pernas não obedeciam ou até se algo paralisara a acção. O padre não transparecia um só incómodo por ter de me atender a uma hora justa de descanso, após um dia cansativo. Era fiel a si mesmo e irrepreensível. Desta vez entramos na sala da direita. Por uns vinte minutos falamos dos acontecimentos recentes, era tão preocupado e cuidadoso que lhe achei graça. Possuía uma inteligência espiritual fantástica, advinda talvez da sua fidelidade e empenho, mas a sua humildade foi desta vez, o que mais me impressionou. Como é possível, que uma pessoa tão boa, me tenha dito coisas tão más? Como me poderá ter feito sentir tão incompreendida? Como poderia parecer tão injusto? Eu, tal como a senhora dos óculos (post “À procura de nós à procura de Ti”), estava de rastos. Estou certa que Deus por qualquer motivo não permitiu que eu saísse de lá bem! Mas será que não estaria Deus nos nossos confessores? Será que Deus só está quando as palavras são de ajuda imediatamente visível e de bem-estar? Tudo se transformara em palavras incompreensíveis, em estranhas formas de me imprimir sentimentos de culpa de coisas ocultas e totalmente desconhecidas à minha consciência! Parecia ter descido sobre o padre uma espécie de sobrenaturalidade justiceira donde tudo era uma abstracção confusa e imperceptível. Nada me pesa na consciência disse-lhe eu, excepto a situação referida. Não sei porquê, mas não acreditava em mim, coisa que não suporto, como se houvesse relatos escondidos ou trunfos na manga. O oposto do que sou. A certa altura digo-lhe: Estamos aqui perante Deus e acha que não lhe estou a dizer a verdade? Não sei que verdade queria arrancar-me ou se ela existe, mas a única verdade que eu detinha no momento era toda a que estava exposta. A certa altura diz-me ainda: “Nós somos sempre responsáveis pelos nossos actos!”. Esta foi a frase mais paradoxal que eu vivi e que mais mexeu comigo. Por um lado é verdade, teoricamente somo-lo, mas por outro pode ser uma grande mentira! (Ler Post responsáveis pelos nossos actos*). Não existe verdade humana, ela é uma total ficção, a única verdadeira Verdade que existe é a de Deus e É Deus, uma vez que tudo o que é humano é manipulável por Deus. Essa possibilidade parece fazer de cada situação, uma situação inteiramente nova, assim Deus o queira, assim o homem o permita. A minha verdade é a verdade de Deus cada vez que eu me entrego às Suas disposições, conhecendo-A ou não. Poderemos ser responsáveis pelas opções de Deus? Será que quando aceitamos as escolhas de Deus, as propostas de Deus, somos responsáveis pelos nossos actos? Será que cada acto conhece as opções de Deus ou disse-lhes apenas “Sim”? Se eu Lhe digo Sim, posso ser responsável pelos meus actos, quando faço a Sua vontade, mas terei eu inteiramente responsabilidade neles? Podemos ser responsáveis pelas propostas de Deus, mesmo não revelando Deus todos os pormenores das Suas propostas mas, somos nós responsáveis pelos actos advindos desse Sim e suas consequências, ou estaremos a assumir responsabilidades que não nos cabem directamente? O facto de nos colocarmos disponíveis para Ele, dá-nos a certeza de que É Ele que age em nós? Não posso e nem devo analisar continuamente as intenções de Deus. Não posso duvidar que É Deus, pois não posso sequer coloca-l’O em causa, baixando a minha confiança n’Ele… A confiança n’Ele e a escolha d’Ele, levam-me a viver as consequências das Suas decisões, agradáveis ou desagradáveis, com o mesmo acolhimento. Se só acolhemos as boas palavras e rejeitamos as más, se nos apressamos a querer descartar-nos do mal estar, não estamos provavelmente aptos a Amar, porque é preciso o sofrimento para existir Amor. Jesus, tenho de reafirmar que seguir-Te é aceitar as Tuas razões, ainda que as desconheça, mesmo ao deixares a minha alma sem luz, quando eu a procurava, e sem perguntar porquê, amar…! Com quanto sofrimento o Amor se realiza? Nem uma só compreensão, nem um só consolo, pelo contrário. Já era noite, todos haviam saído. Tudo às escuras. Eu sentia a dicotomia do padre e de Deus. O padre era bom e Deus não era cruel. “Estou muito pior do que entrei” disse-lhe incapaz de partir. “Não foi minha intenção”_afirmou. “Talvez lhe faça sentido depois!” Essas palavras ressoaram estrondosamente pior. Era então uma espécie de confissão adiada que dava para o presente e para o futuro? Era uma confissão para depois, com absolvição presente? Não bastava o vazio do presente como o receio do futuro. Não me libertou, nem na última frase que me disse quando me acompanhou à porta ao darmos um forte aperto de mão. Nesse dia fiquei deprimida. Na manhã seguinte não me apetecia ver a luz do sol. A última vez que me sentira assim, há uns anos foi quando falecera o meu cão. Como é que o padre me deixara tão mal e as expectativas de que me entendesse saíram tão forjadas? No dia seguinte socorri-me de um sacerdote, meu amigo há anos, que surgira no skype. Um padre nunca deve deixar ninguém sair mal da confissão!_disse (mas será que isso é verdade?) Falou-me genuinamente da Misericórdia de Deus pela segunda vez na vida e eu reencontrei a paz. Que a minha Misericórdia andava muito por baixo e também aqui eu vi a face de Deus a dizer-me muitas coisas numa pequena frase, quando em tantas palavras eu não tinha percebido nada (no momento). Mas não seria Ele, O mesmo nos dois sacerdotes? Por fim, a primeira lição que comecei a retirar desta experiência foi que quando se fica muito mal o sentimento toldam-nos a mente, venda-me os olhos e podemos fazer coisas erradas. Que não me devo desesperar de socorro e nem de uma busca urgente de um novo equilíbrio. Que tenho alguma incapacidade de lidar com o sofrimento, a incompreensão e a fragilidade. Percebi que é preciso suportar a dor. Que me devo render à aceitação de que quem deseja seguir a Cristo, precisa de saber viver a dor! Essa dor, também pode ser provocada pela mão de Jesus, através do sacerdote. Que as palavras das confissões não são alheias a Deus. Que por fim a vontade de Deus é Sempre feita, quer a conheçamos quer não. O resto irei compreendendo, de uma confissão adiada...
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