Não estava católica…
Abriu um restaurante chinês. Seis euros e noventa e cinco o prato
cheio. A vigilância impede tupperware para o excedente, uma vez que é
norma do restaurante comer à descrição. Não demorei mais de 15 minutos a entrar, comer e sair. Reentrei devido à factura incorrecta. Alguém discute visivelmente alto. Uma chinesa diz-lhe que quer comer sem pagar, mas a cliente contrapõe que vai pagar tudo, que é inadmissível o que se passou e por isso vai reclamar no livro. Viu-me.
Reconheceu-me. Reconheci-a de há pouco, estava à minha frente na missa, na verdade reparara nela pela exuberância das formas e as unhas verdes enormes e
arqueadas, sem pensar que havia de senti-las. A filha, de trancinhas e missangas certinhas era bem cuidada pela mãe. A certa altura procura puxar-me pelo braço arranhando-me ligeiramente, sem que me tivesse visto senão aquela única vez. Quer explicar... era um rissol que a filha tinha
comido. Tinha de pagar o rissol ou um prato de criança completo, não cheguei a perceber. Tenta despejar o parto no caixote do lixo dos lavabos. A
empregada quer impedi-la, que confusão… Pode dizer-se que "ela não estava nada católica", não! A voz intermitente da chinesa era totalmente abafada. E eu vim a pensar nas figuras que por vezes fazemos tão
discrepantes da prática da nossa fé. Que não há um mundo dentro da igreja e outro cá fora, que certamente eu, noutras circunstâncias terei também deixado noutros esta impressão desconfortável. Não o digo por ela, mas talvez pela consciencialização da nossa própria realidade. Não na sua exactidão, mas noutras circunstâncias. Uma espécie de espelho do outro em nós, e a consciência das disparidade
entre a nossa fé e a nossa acção, que nos deixa intimidados..... Vim a pensar como gostava de ser católica na total acepção da palavra, todos os dias, a
todas as horas e em qualquer lugar…
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