Lembro-me de há muito tempo uma
pequena situação me ter deixado a pensar. Foi numa feira no interior de
Portugal onde abundavam legumes. Uma mulher talvez idosa, que os lenços escuros
pela cabeça e as roupas pesadas enganam, me despertou a atenção. Penso que por
vender uma ou duas alfaces sobre um lenço esticado no chão e por estar um pouco
mais afastada dos outros. Aqui não há licenças_ pensei, também não me parece
que tenha vendido outra mercadoria que pudesse ter trazido… simplesmente achei
que devia ajuda-la. Parecia-me pobre e excluída. Resolvi fazer uma boa acção.
Pedi-lhe que me desse uma alface, ainda que depois não chegasse a come-la. Comprava apenas para ajudar. Tinha pensado dar-lhe dinheiro, mas não queria constrange-la. Dadas as circunstâncias na altura do pagamento, deliberadamente dei-lhe várias moedas em excesso, dizendo logo obrigada! A senhora olhou e disse, está certo. Não disse obrigada, disse está certo! Eu não fiz qualquer observação e prossegui. A seguir não fiquei tão tranquila nem contente como pensava. No caminho como que dizia para mim mesma: Estás a ver, em vez de teres feito uma boa acção, deste oportunidade à mulher para cometer uma falta. Por um lado querias ser generosa, por outro vê o que lhe deste, a tua generosidade foi conceder-lhe a oportunidade de não ser verdadeira, ela bem sabia que havia dinheiro a mais e contudo não o disse. No meio destes absurdos pensamentos, desejei até não lhe ter comprado nada. Depois achei que eu é que era a culpada por ter dado dinheiro a mais à mulher e a seguir quase achava que tinha mesmo prejudicado a mulher. Por fim, pensei: Talvez ela até tenha contado mal o dinheiro, talvez a ela lhe tenha dado mesmo certo, quem sabe? Assim, quem a julga mal sou eu, por isso eu é que poderia ser julgada pelos meus próprios juízos! Meu Deus perdoa-me, pois também eu não era merecedora do conforto de dar só por caridade, uma vez que provavelmente o fazia para me sentir bem e não por generosidade assim sendo só posso agradecer-te não ter tirado disso qualquer conforto.
Pedi-lhe que me desse uma alface, ainda que depois não chegasse a come-la. Comprava apenas para ajudar. Tinha pensado dar-lhe dinheiro, mas não queria constrange-la. Dadas as circunstâncias na altura do pagamento, deliberadamente dei-lhe várias moedas em excesso, dizendo logo obrigada! A senhora olhou e disse, está certo. Não disse obrigada, disse está certo! Eu não fiz qualquer observação e prossegui. A seguir não fiquei tão tranquila nem contente como pensava. No caminho como que dizia para mim mesma: Estás a ver, em vez de teres feito uma boa acção, deste oportunidade à mulher para cometer uma falta. Por um lado querias ser generosa, por outro vê o que lhe deste, a tua generosidade foi conceder-lhe a oportunidade de não ser verdadeira, ela bem sabia que havia dinheiro a mais e contudo não o disse. No meio destes absurdos pensamentos, desejei até não lhe ter comprado nada. Depois achei que eu é que era a culpada por ter dado dinheiro a mais à mulher e a seguir quase achava que tinha mesmo prejudicado a mulher. Por fim, pensei: Talvez ela até tenha contado mal o dinheiro, talvez a ela lhe tenha dado mesmo certo, quem sabe? Assim, quem a julga mal sou eu, por isso eu é que poderia ser julgada pelos meus próprios juízos! Meu Deus perdoa-me, pois também eu não era merecedora do conforto de dar só por caridade, uma vez que provavelmente o fazia para me sentir bem e não por generosidade assim sendo só posso agradecer-te não ter tirado disso qualquer conforto.
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