A minha mãe, mostra-me um
chapéu-de-chuva bege automático e pergunta: “É teu?” A minha mente rapidamente
me levou ao ano de 1996. Eu estava na igreja sentada no primeiro banco na ala
da esquerda em frente ao ambão. Era um dia de inverno, colocara o chapéu no
chão para não manchar o banco encerado. No fim da missa depressa alcancei a
porta e ao ver que chovia voltei de imediato ao local onde deixara o chapéu.
Não foram mais de três minutos, mas foi o tempo suficiente para ter
desaparecido. Dirijo-me à secretaria confiante, mas nada!
Comentei com o funcionário indignada, que vêm à missa e depois levam os chapéus dos outros. Ele encolheu os ombros como confirmando a triste realidade. Nessa altura era eu uma recém chegada à igreja desde a muito remota adolescência e esperava pouco menos que a perfeição, não imaginava que pessoas que frequentavam a missa diariamente, não fossem irrepreensivelmente sérias.
Comentei com o funcionário indignada, que vêm à missa e depois levam os chapéus dos outros. Ele encolheu os ombros como confirmando a triste realidade. Nessa altura era eu uma recém chegada à igreja desde a muito remota adolescência e esperava pouco menos que a perfeição, não imaginava que pessoas que frequentavam a missa diariamente, não fossem irrepreensivelmente sérias.
_“Quem to
deu?” perguntei.
_“Uma
mulher. Se este chapéu não era da minha filha, tinha-o esquecido na igreja”.
_”Diz lá
quem foi! Quem é que teve a coragem de ter ficado com o meu chapéu quinze anos,
agora ver-me todos os dias e não mo vir devolver a mim pessoalmente, mas a ti?
(ela normalmente protege os outros do meu mau feitio).
_ “Deve
ter-se ido confessar e roeu-lhe a consciência!”_ disse-me.
_ “Uma
pessoa que vai à missa diariamente só se confessa passados 15 anos?”_ inquiri
ligeiramente irritada, não pelo chapéu, mas pela atitude. Fiquei a pensar como
coisas tão simples me conseguiam tirar a paz interior. É certo que poderia
fazer avaliações mais generosas. Poderia pensar que a senhora precisaria do
chapéu mais do que eu, mas a resignação não abunda prioritariamente em mim.
Poderia pensar que teria sido uma lição. Afinal haveria em mim talvez algum
rigor excessivo e desnecessário nos acessórios do meu vestuário, como este
chapéu que condizia com dois fatos exactamente da mesma cor e do qual eu
gostava particularmente. Poderia pensar que por vezes temos de abrir mão do que
prende a nossa afectividade.E nem podia dizer que era do que mais me fazia
falta que abria mão, devia dar-me por feliz! Sim, cheguei até a dar um chapéu e
a emprestar um outro sem aspirar à devolução, a verdade é que também não haviam
custado mais de cinco euros. Mas uma coisa é dar e emprestar, outra é
tirarem-nos o que é nosso, sem nossa autorização. Eu sentia que esta última
podia ser bem mais valiosa do que as primeiras, no entanto ainda não tinha
conseguido acomodar a situação dentro de mim, ao ponto de quando olhei o chapéu
ser bem capaz de desejar solicitar um novo pelo ligeiro desgaste sofrido. Foi
então que de repente me questionei: Será que eu já fiz isto a alguém? Será que
tenho alguma coisa lá para casa que não é minha, há anos? Bom, sim… tenho um
escadote, robusto e dos antigos… há oito longos anos…! Já o usei várias vezes,
se não fosse ele certamente não teria conseguido pintar sozinha as paredes. A
verdade é que quando me separei do meu namorado creio que ele se referiu
particularmente à ausência do escadote que perturbava o pai. Mas parece que
quando uma relação acaba as coisas podem valer mais do que coisas e servir como
pesos de arremesso de corações feridos, sem que possamos ter a verdadeira
consciência. Nenhum de nós a teve. Já tinha pretendido devolve-lo mais de uma
vez, mas o tempo foi passando e afinal ia usufruindo dele quando era
necessário. Também não tinha vontade de rever os seus familiares e por isso nem
pensei que para eles também seria útil e necessário o seu escadote. Agora o pai
dele podia até ter falecido, ele não vivia mais em Portugal, e eu não tinha
coragem de subir até a um quarto andar com um escadote ao ombro passados anos
para o devolver, contudo, era preciso que o fizesse agora que descobrira que
podia ser ligeiramente mais semelhante à mulher do que imaginara. Eu não
roubara nada, mas detinha como meu algo que não o era. Afinal talvez ela
tivesse tido um acto de coragem, não ao ponto de me enfrentar, mas pelo menos
minimizou o dano. Quinze anos podem afinal passar num ápice quando nós vamos
adiando ou procuramos ter coragem para o que não temos… A missa desse dia
parecia-me afinal ter sido ontem… Por fim pensei… poderia ter dito que aquele
chapéu não era meu. Não seria uma mentira, uma vez que era já mais dela do que
meu. Finalmente desprendi-me da paixão de lutar por mais uma causa que só Deus
pode avaliar.
Eu nunca
soube quem foi a mulher que me devolveu o chapéu. O chapéu desapareceu pouco
depois, nunca mais o voltei a ver.
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