domingo, 11 de agosto de 2013

História - O chapéu-de-chuva


A minha mãe, mostra-me um chapéu-de-chuva bege automático e pergunta: “É teu?” A minha mente rapidamente me levou ao ano de 1996. Eu estava na igreja sentada no primeiro banco na ala da esquerda em frente ao ambão. Era um dia de inverno, colocara o chapéu no chão para não manchar o banco encerado. No fim da missa depressa alcancei a porta e ao ver que chovia voltei de imediato ao local onde deixara o chapéu. Não foram mais de três minutos, mas foi o tempo suficiente para ter desaparecido. Dirijo-me à secretaria confiante, mas nada!
Comentei com o funcionário indignada, que vêm à missa e depois levam os chapéus dos outros. Ele encolheu os ombros como confirmando a triste realidade. Nessa altura era eu uma recém chegada à igreja desde a muito remota adolescência e esperava pouco menos que a perfeição, não imaginava que pessoas que frequentavam a missa diariamente, não fossem irrepreensivelmente sérias.
_“Quem to deu?” perguntei.
_“Uma mulher. Se este chapéu não era da minha filha, tinha-o esquecido na igreja”.
_”Diz lá quem foi! Quem é que teve a coragem de ter ficado com o meu chapéu quinze anos, agora ver-me todos os dias e não mo vir devolver a mim pessoalmente, mas a ti? (ela normalmente protege os outros do  meu mau feitio).
_ “Deve ter-se ido confessar e roeu-lhe a consciência!”_ disse-me.
_ “Uma pessoa que vai à missa diariamente só se confessa passados 15 anos?”_ inquiri ligeiramente irritada, não pelo chapéu, mas pela atitude. Fiquei a pensar como coisas tão simples me conseguiam tirar a paz interior. É certo que poderia fazer avaliações mais generosas. Poderia pensar que a senhora precisaria do chapéu mais do que eu, mas a resignação não abunda prioritariamente em mim. Poderia pensar que teria sido uma lição. Afinal haveria em mim talvez algum rigor excessivo e desnecessário nos acessórios do meu vestuário, como este chapéu que condizia com dois fatos exactamente da mesma cor e do qual eu gostava particularmente. Poderia pensar que por vezes temos de abrir mão do que prende a nossa afectividade.E nem podia dizer que era do que mais me fazia falta que abria mão, devia dar-me por feliz! Sim, cheguei até a dar um chapéu e a emprestar um outro sem aspirar à devolução, a verdade é que também não haviam custado mais de cinco euros. Mas uma coisa é dar e emprestar, outra é tirarem-nos o que é nosso, sem nossa autorização. Eu sentia que esta última podia ser bem mais valiosa do que as primeiras, no entanto ainda não tinha conseguido acomodar a situação dentro de mim, ao ponto de quando olhei o chapéu ser bem capaz de desejar solicitar um novo pelo ligeiro desgaste sofrido. Foi então que de repente me questionei: Será que eu já fiz isto a alguém? Será que tenho alguma coisa lá para casa que não é minha, há anos? Bom, sim… tenho um escadote, robusto e dos antigos… há oito longos anos…! Já o usei várias vezes, se não fosse ele certamente não teria conseguido pintar sozinha as paredes. A verdade é que quando me separei do meu namorado creio que ele se referiu particularmente à ausência do escadote que perturbava o pai. Mas parece que quando uma relação acaba as coisas podem valer mais do que coisas e servir como pesos de arremesso de corações feridos, sem que possamos ter a verdadeira consciência. Nenhum de nós a teve. Já tinha pretendido devolve-lo mais de uma vez, mas o tempo foi passando e afinal ia usufruindo dele quando era necessário. Também não tinha vontade de rever os seus familiares e por isso nem pensei que para eles também seria útil e necessário o seu escadote. Agora o pai dele podia até ter falecido, ele não vivia mais em Portugal, e eu não tinha coragem de subir até a um quarto andar com um escadote ao ombro passados anos para o devolver, contudo, era preciso que o fizesse agora que descobrira que podia ser ligeiramente mais semelhante à mulher do que imaginara. Eu não roubara nada, mas detinha como meu algo que não o era. Afinal talvez ela tivesse tido um acto de coragem, não ao ponto de me enfrentar, mas pelo menos minimizou o dano. Quinze anos podem afinal passar num ápice quando nós vamos adiando ou procuramos ter coragem para o que não temos… A missa desse dia parecia-me afinal ter sido ontem… Por fim pensei… poderia ter dito que aquele chapéu não era meu. Não seria uma mentira, uma vez que era já mais dela do que meu. Finalmente desprendi-me da paixão de lutar por mais uma causa que só Deus pode avaliar.

Eu nunca soube quem foi a mulher que me devolveu o chapéu. O chapéu desapareceu pouco depois, nunca mais o voltei a ver.

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