quinta-feira, 1 de agosto de 2013

A mulher do batom vermelho


A mulher do batom estava na igreja. Fora há 20 anos atrás. Tive de olhar várias vezes para a reconhecer. As suas pernas são dois palitos enfiados numas calças de algodão. Dantes tinha umas pernas fortes a saírem-lhe das saias. Enfiava agora um barrete na cabeça de lã, mal amanhado, andava com uns sacos de plástico e reparei que tinha um sapato roto. Eu não senti pena! Como é que o mal nos pode transformar  e conceber um coração frio ao ponto de me surpreender? Não havia esquecido os acontecimentos do passado, percebera ao vê-la. 
Lembro-me do homem que vivia com ela, parecia uma pessoa honesta e de bom carácter falara com ele algumas vezes. Tinham-se junto já tardiamente talvez por necessidade após os 60. Ela ficava muitas vezes a dizer-me mal dele e a queixar-se dos obstáculos que ele lhe colocava. Eu na altura ouvia, porque trabalhava num estabelecimento e era preciso ser paciente com os clientes. Hoje não ouviria tudo, pois ouvir é consentir. Um dia ela vem com um batom vermelho para me dar. Disse-me que o pusesse. Eu acedi. Quando o seu marido me viu, senti a sua estranheza, constrangi-me com a sua expressão. Mais tarde soube então que o senhor não gostava de ver a mulher com batom vermelho. Havia feito alusão à minha pessoa como um exemplo, simplesmente porque conviviam comigo diariamente. Não é que nunca tivesse usado batom vermelho na minha vida, mas seria muito pouco usual. Para depreciar a minha imagem e elevar a sua ela fez-me pintar os lábios e depois que o companheiro me visse, o que o fez ficar claramente surpreso. Pôde então mostrar-lhe como ele estava errado, perante a sua razão, o meu desconhecimento e ingenuidade. Fiquei chocada quando me contaram tamanha malícia por parte daquela com quem convivia há muito e a quem facilitava em várias situações da vida. Fui proibida de lhe falar. E ela foi proibida de se aproximar de mim, por isso nunca lhe expressei a minha desaprovação. Acho que no meu coração lhe chamei velha gaiteira e falsa. Quando somos novos achamos que temos amigos para toda a vida, somos totalmente enganados. Agora a mulher estava ali na igreja. Olhava para mim, mais pela minha actividade na igreja do que por me reconhecer. Queria dizer-lhe tudo como se o tempo não tivesse passado, como era falsa, como era insensível, como havia sido má noutras situações semelhantes, mas determinei-me a não o fazer. Quando íamos a sair, quis reverter a minha tendência vingativa. Ela estava com dificuldade em descer… “ai menina deixe-me agarrar-me a si” , sentia-me estranha com as recordações de sofrimento e decepção; e por me ter privado da pessoa que eu julgara que ela era e ao mesmo tempo uma profunda angústia pelo estado a que podemos chegar quando somos velhos com o passar dos anos. Finalmente acrescentei: “quer que lhe dê boleia?” Ela  demoraria mais de três quartos de hora a chegar a casa, ia por um caminho mais distante para não ser assaltada, e acenou que sim. Nem por um momento fez referência a conhecer-me. Lamentou-se de estar só, de ter filhos e não quererem saber dela e de um marido que ficara em Angola omitindo o homem que eu conhecera. Certamente havia morrido e não mais lhe atribuíra importância. Não lhe havia deixado nada, pois era uma relação de conveniência. Naquele momento tinha tido a minha sórdida oportunidade, de dizer aos maus o mal que fazem, mas o meu coração estaria a ser pior do que ela havia sido para mim. Deixei-me permanecer uma total desconhecida. Soube das suas doenças e da sua vida, das suas misérias e ofereci-me para ajuda-la e leva-la ao hospital  e no entanto se não fosses Tu Jesus, poderia cair no mesmo erro, o de me dar a quem me faz mal.  Mas os anos marcam drasticamente as pessoas. As dores transformam-nas e eu já não conhecia aquela mulher. A mulher que conhecera tinha ficado no passado. Agora eu não queria ser ainda mais pobre do que ela, sentindo rancor no meu coração. Não lhe iria infligir um mal igual ou maior só como forma de punição ou de libertação, pois eu sentia no fundo do coração que se o fizesse é que ficaria presa, e que só Vós oh Jesus, libertais o coração dos que sofreram injustiças. Diz-se que só Tu tens o direito de praticar vingança, no entanto Tu só praticas a Misericórdia, e todas as coisas que me dizes no coração provêm do Teu Amor. 

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