quarta-feira, 3 de setembro de 2014

A prova

Sabe que eu tive para ir para padre? A minha mãe andava sempre lá na missa. Uma vez disse a uma senhora, chamavam-lhe a fidalga, que queria que os seus dois filhos fossem padres. Ora foi o que ela quis ouvir. Combinaram para ver se os meninos eram educadinhos. Fomos os dois vestidinhos, eu fui até de lacinho, tinha uns sete anos, a casa dessa Fidalga. Ela tinha uma casa enorme com jardim e uma capela onde estava o sobrinho dela, que nos ia observar e era padre. Ele lá deu a missa e nós rezamos (diz juntando as mãos e esticando-se gozão) … eu sabia rezar o credo, a salve rainha… andei na catequese. Depois ele ao fim da missa perguntou-nos: "Querem seguir esta vida?"
E nós dissemos: "Sim, queremos!" Disseram à minha mãe para preparar então o enxoval para os meninos. Nessa altura ia-se para os Olivais. Quando viemos da prova fomos brincar para a rua. Fomos anunciar a nossa decisão aos outros. Nós éramos miúdos da rua, ali de Alcântara, já tínhamos jogado todos os jogos, não éramos como esses meninos queques… nós até jogámos aos maridos! Aos maridos? Sim, as meninas faziam que estavam a arrumar a cozinha e depois a certa altura iam com os maridos para baixo das camas, imitávamos os pais. Era na casa lá de um ou de outro. Quando dissemos que íamos para o seminário disseram-nos que já não podíamos mais brincar assim com meninas… nós não sabíamos… chegamos a casa e dissemos que já não queríamos ir. Era uma vergonha, a minha mãe já estava comprometida, já estava tudo preparado, foi dizer ao meu pai: “Eles estão a negar-se”. O meu pai saca do cinto, zás, nós corremos escada a baixo e fugimos. Quando voltamos aquilo já tinha arrefecido. Depois não fomos. Foi um desgosto para a minha mãezinha que se fosse viva ainda estava a chorar, ela gostava de ter dois filhos padres. Olhe dessa altura saiu um tio padre. Ainda lá anda. Era pobre, pagaram-lhe todos os estudos… e tinha vocação? Não sei, devia ter. Quando foi ordenado para presbítero acho que ninguém lá foi. Eu não fui. Foi lá para o norte… mas, diz aproximando-se da porta do carro impedindo-me ainda que a fechasse atrás das três horas ininterruptas e sem fôlego de conversa: Tem uma amante!_ri como os bonecos dos desenhos animados entre dentes, avermelhando na face as bochechas… Como é que sabe disso se nem sequer o foi ver? É o que dizem as vozes…  As vozes? Sim, viram-no numa feira. Parece que ia uma mulher atrás dele a dizer: “Não compres isso que isso não é preciso lá em casa”. Solto uma gargalhada. Ora quando se fala com esta autoridade só pode ser marido e mulher….! Acompanhando o carro ao bater da porta, fica acenando um adeus com os quatro dedos em pequenos e curtos gestos, rindo hilariante. Adeus até breve! Adeusss....

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