domingo, 22 de setembro de 2013

A velhinha imparcial

Missa de Domingo. A igreja repleta. Uma velhinha castiça levanta-se do banco. Corcunda. Saia branca fina, com grandes bolas azuis escuras. Casaco de lã, pendente. Compleição pequena. Bengala. Um saco da Zara. Lembrei-me dos anúncios da Benetton, daria uma excelente foto publicitária! Pretenderia ela a meio da missa, um lugar mais à frente? Ouviria mal? Os microfones faziam ressoar a voz do padre bem alto. Verbalizava com uma, outra pessoa. Mandaram-na para trás. Não era um lugar, passara um vago. Fazia agora o percurso inverso chegando ao pé de mim, e sem me dar tempo de lhe perguntar se precisava de ajuda disse-me: ”Dê-me uma esmola para um medicamento”...
Trazia agarrada às unhas sujar e incertas um papel maltratado que parecia ser uma receita. Reparei que os finos e ondulados cabelos brancos compridos encobriam o que parecia um enorme tumor, acrescentado a um dos lados da sua face. Procurei na carteira, em cada bolso, por fim uma nota. Hesitei. A única que tinha. Achei que Deus gostaria que lha desse, tive essa impressão. Ela não deu um sinal de maior satisfação do que com os 50 cêntimos que recebera logo de seguida: “Que Deus a abençoe, saúde” repetira. Depois eu disse a Deus: ”Xii Senhor, deste-lhe uma nota! Deve mesmo precisar... talvez a use para comer. Obrigado por seres tão bom para com os que precisam mais do que eu, a mim não me fará falta. Já gastei tanto dinheiro mal gasto!” Aproveitei para me chegar à frente porque me distraio com pequenas coisas. A homilia deste sacerdote passa muitas vezes pela minha atenção, como uma leve aguarela debotada.  O padre diz para nos saudarmos. Há olhos nos olhos e olhos baixos, olhos já no próximo, olhos que não queriam e que querem. Uns despachados outros demorados, outros tímidos… Um homem saúda expansivamente uma mulher. Conhece-a. As pérolas do colar saltitarem pelo chão espalham-se. Saias e calças virando para um lado e outro tentam trava-las. O homem apanha o máximo que pode. Outro baixa-se para apanhar outra. Não, isso é uma migalha!_ queria dizer-lhe. Ele mete-lhe o dedo. Descola-a dos dedos. Então pensei: Uns apanham pérolas, outros migalhas!! Mas o que são as pérolas e o que são as migalhas? Lembrei-me que ainda há pouco a velhinha não fizera distinção entre a nota e os cinquenta cêntimos… Vim a pensar no carro. Porque não ouvi o evangelho, ao chegar a casa,  li: “Quem é fiel no pouco também é fiel no muito; e quem é infiel no pouco também é infiel no muito. Finalmente e tendi, não se tratava da quantidade, tratava-se da fidelidade a Deus. Em cada pequena escolha, acabamos por optar por Vos servir a Vós, ou ao dinheiro. Tanto com o grande, como com o pequenino, as moedas iguais a simples migalhas, a velhinha era imparcial, como Deus, porque na fidelidade de intenção e de coração é que está o verdadeiro tesouro.

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