terça-feira, 10 de setembro de 2013

Missa de Domingo

Tinha esgotado todas as formas de a conseguir levar à missa de domingo. Os esforços pareciam inglórios. Era visível o retrocesso que surgia agora, para me aborrecer. Investir, investir em pequenos nadas, para alcançar a ida de Maria à missa. Maria é mais velha que eu vinte e quatro anos. Já festejava o sucesso de uns meses quando nos últimos domingos passaram a surgir todo tipo de  reticências e impedimentos: um dia era o almoço, outro dia era a roupa, outro estava cansada, outro são todas umas beatas ou cada um reza quando quer e o rol era infindável. Eu também já tinha usado várias estratégias do inventário de artimanhas com sucessos, mas começavam a escassear… 

Nas últimas vezes o diálogo tinha-se tornado disfuncional. Dei por mim a discutirmos severamente por causa da ida missa. Parecia que o demónio, se existe, ocupara-se deste assunto e punha-me à prova! A reforçar este pensamento surgiram surpreendentemente precisamente nas últimas manhãs de domingo um parafuso enfiado no pneu do meu carro, o que segundo a oficina não fora acaso, mas requinte, mas não, não era obra da Maria! Nada me parecia normal. Neste sábado a fazer umas manobras de dança, senti como que um alucinante pontapé na perna. Não percebi o que embatera na minha perna, mas o facto é que tentei por o pé no chão e não consegui. Fiquei preocupadíssima, não conseguia andar. Tive de me ir deitar, ligar para o médico, por gelo, pomada e tomar um anti-inflamatório. Na manhã deste domingo não estava visivelmente melhor. Tinha dores horríveis e só pensava o que seria de mim, agora dependente de que me fossem buscar um copo com água, o mais certo era ficar à sede, pensei. Liguei a tv. Iniciava a missa. Preparava-me para assistir deitada. Maria chega ao pé de mim e pergunta: “Então, não vamos à missa?” Não era ironia, era de convicção. Achei cómico. Os anjos só poderiam estar a brincar comigo. Mas, disse: Sim, agora iremos à missa! Talvez também ela tenha usado do recurso de que dispunha, o mais favorável para me fazer levantar à força. Lá fui eu sem saber como a agarrar-me às paredes e a coxear em cada degrau, mas chegamos à igreja. Ficamos num banco do fundo. Chegada a altura da comunhão, senta-se. Foi nessa altura que eu disse: “Agora vais ter de me acompanhar à comunhão, não posso ir sozinha tenho de me apoiar em alguém”. Acho que Deus me entendeu. Sim, Ele entendeu-me apesar de tudo. Por vezes Deus troca as voltas ao demónio, e as pessoas também caem na suas próprias armadilhas. Só falta mesmo, é eu ficar boa! 

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