Ia marcar uma consulta, não era para mim. Aproximei-me da máquina
para retirar a senha, mas um casal de seniores aproximava-se ao mesmo tempo que
eu. Senti que me apressei, que queria tira-la em primeiro, tanto que o fiz! No
mesmo impulso também desejei logo ceder a minha senha. Entreguei-a à mulher. O
homem disse surpreso então e a senhora? "Deixe estar"_ referi. “Agora
fica sem senha?” _ insistiu enquanto eu procurava retirar outra senha, em vão. A
máquina encravou. Nessa altura a mulher aproveita para se afastar e o marido
segue-a um pouco depois. Nem me havia lembrado que não estava só a dar a vez da
senha, mas que poderia mesmo perder a consulta daquela semana. Passa
a funcionária dá umas pancadas na máquina, sai a senha. Espero. Marco a consulta
e saio com uma sensação de contentamento. A verdade é que muitos dos nossos
actos são egoístas. O homem certamente achou-me generosa, uma vez que nem tinha
sentido que eu havia desejado precipitar-me sobre a senha e que lha dei com o
mero propósito de libertar-me daquela impulso irreflectido ou intenção desconfortável. Depois disso,
sempre que sentimos ter alguma pequena vitória, domínio sobre nós e nosso
procedimento ficamos satisfeitos e confortados, logo a minha acção por último
foi duplamente egoísta. Para que não ficasse com o imerecido conforto, logo a
seguir tive oportunidade de ver bem o inverso. Conduzia numa faixa e outro
carro na inversa. Ele tinha um obstáculo no entanto ao ver-me acelerou como
muitos fazem talvez por impulso como eu fiz com a senha; eu, de forma a fazê-lo
respeitar a regra de que quem tem o obstáculo é que cede passagem acelerei
passando primeiro. Ora, perdi não só o gosto de me ter dominado anteriormente,
como perdi a melhor hipótese de ter tido uma atitude de maior generosidade.
Também perdi a pequena vitória daquele momento. Também perdi a oportunidade de
ceder perante a regra que me favorecia. Afinal quem ficou com o obstáculo, não
foi ele, fui eu!
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